Ele a inquietava, a tirava de seu eixo. Ela não sabia como se comportar e por isso na maior parte do tempo era muito arisca e fazia piadas a seu respeito. Um misto de admiração e repulsa a dominava.
Sua voz grave e imponente preenchiam todo aquele espaço e ela só conseguia ficar ainda mais hipnotizada por aquela criatura tão bem articulada, que parecia ser capaz de dominar qualquer assunto. De física quântica a uma tela de Van Gogh ou até mesmo os sentimentos que uma bela música pode despertar.
A medida que conhecia os cômodos da vida dele se admirava com a beleza do lugar e até mesmo os objetos empoeirados e fora de ordem, que representavam as cicatrizes, medos e defeitos dele, deixavam aquela menina mais hipnotizada.
O plano falhou! Ao contrário do que ela esperava, a cada dia encontrava mais motivos para se encantar.
Se apaixonou! Ouvir aquela voz grave era agora para ela como uma necessidade. Saber como ele passou o dia, se dormiu bem, se se alimentou direito, se estão bem de saúde e principalmente se havia alguém ocupando o coração do objeto de sua paixão eram as notícias que mais despertavam sua atenção. Em pouco tempo ganhou a confiança dele e descobriu tudo o que precisava.
Sofreu! Reconhecer que as portas do coração daquele que se tornou o protagonista de seus sonhos estavam fechadas não foi uma tarefa fácil. Embora soubesse que não era responsabilidade sua, um sentimento de inadequação a invadia. Ela julgava beleza insuficiente, maturidade insuficiente, enfim...Atrativos insuficientes.
Sentiu raiva! Pois diversas vezes ensaiou um afastamento, mas faltava-lhe a coragem.
Então ela tomou todo o sentimento de insuficiência e a contradição de seus desejos e os pôs no colo, contemplou a face deles e descobriu, não sem ajuda, que o sofrimento, a raiva e a angústia que sentia não era responsabilidade dele, mas da incapacidade que ela tinha em lidar com os próprios desejos.
Entendeu! A questão não era ser ou não suficiente e então ela percebeu que ao contrário do que a voz da insegurança lhe dizia, ela tinha sim o que acrescentar a vida dele. Não fosse assim as conversas entre eles não seriam tão prazerosas.
Compreendeu por fim que na vida o papel de alguns encontros não é a permanência de um na vida do outro, que por mais que se queira um encontro amoroso, alguns deles podem ser estritamente fraternais e ainda assim não perderem o brilho e serem grandiosos. Concluiu que conhecê-lo foi uma das melhores coisas que já lhe aconteceram, que a proximidade entre eles foi necessária para que ela pudesse enxergar o mundo de outra perspectiva. Assim... Ela segue seu caminho com um novo olhar, tranquilidade, aprendizado e o exercício do desapego para pôr em prática :
"Tudo o que me é caro e todas as pessoas a quem eu amo têm a natureza daquilo que muda. Não há como não me separar delas."
