A vida inteira dependi de transporte público e acreditem, já ouvi de tudo dentro ou mesmo em pontos de ônibus. A surpresa da semana, a de ontem pra ser mais precisa, foi trazida por uma desconhecida.
Lá estou eu sentada esperando o bom e velho 303 na universidade, eis que chega uma mulher com traços leves de Síndrome de Down e começa a puxar assunto, diz que está nevosa que seu pulso dói muito. Eu pergunto o que aconteceu e ela me responde que cortou o pulso. Neste momento eu vejo uma espécie de curativo feito com guardanapo e durex no pulso esquerdo e manchas de sangue na mão direita, continuo a conversa acreditando que o ferimento deve ter sido fruto de algum acidente. A moça prossegue em seu relato, diz que tem muita raiva do vigilante do departamento de psicologia, que é sempre vítima de piadas maldosas, segundo a mesma por ter síndrome de Down. Diz que qualquer dia desses cria coragem e faz uma besteira e completa que não tem coragem, que se corta por não tem coragem de machucar outras pessoas. Só então compreendi o que até então meu cérebro se recusava a aceitar. A MOÇA (Eliane - descobri seu nome após alguns minutos de conversa) ACABARA DE CORTAR SEU PRÓPRIO PULSO!!!! Continuei a conversa tentando agir da forma mais natural possível. Lembro apenas de ter balbuciado qualquer coisa sobre não deixar que a opinião dos outros a fizesse tanto mal. Que idiotice a minha! Como se fosse fazer alguma diferença para ela o meu comentário ¬¬'
O tão esperado 303 se aproxima e eu simplesmente não consigo sair do lugar, como poderia depois de ouvir tudo aquilo? Eliane pergunta se eu vou pegar aquele ônibus e eu digo que sim, ao me ver imóvel diz que não preciso me preocupar, que não deveria perder o ônibus por sua causa. Eu então a cumprimento e entro no ônibus.
Fiz uma breve pesquisa e descobri que provavelmente Eliane sofra do Transtorno de Personalidade Bordeline. Quem tiver curiosidade pode dar uma olhada em: http://www.mentalhelp.com/Borderline.htm
É possível que a discriminação que ela me relatou seja apenas fruto de sua imaginação
Pensando bem... é possível até que os ferimentos não sejam verdadeiros.
Sei apenas que as palavras de Eliane ainda reverberam em mim. E que depois deste encontro agradeço a Deus pela saúde que tenho e pela sanidade que penso ter.
